Sou cristão desde que me entendo por gente.Para ser mais preciso, sou cristão antes mesmo de qualquer entendimento. Pois não entendia nada – e nem poderia – quando fui levado a pia batismal para receber meu primeiro sacramento.
Quando o entendimento chegou, confirmei os votos feitos por meus pais. E os renovei a cada nascimento de meus filhos e netos.
Entre o mergulho naquela pia e minha última viagem a Turquia na semana passada (a terceira, desta vez a região da Capadócia), foram mais de seis décadas imerso no cristianismo. Não esperava, portanto, que a religião que abracei por toda minha vida me reservasse algumas surpresas.
Mas reservava. E ela estava sob meus pés.
Por túneis e câmaras escavados no subsolo de cidades turcas fui finalmente apresentado ao verdadeiro berço do cristianismo.
Até então – por obra e graça da minha ignorância – creditava apenas a Roma, e ao enclave onde se insere o Vaticano, a resistência que viabilizaria a consolidação da religião cristã.
O berço real não tem a opulência que se vê no reino de Francisco. Nada de Capelas Sistinas com a genialidade de Michelangelo; nada de ouro ou prata.
O cristianismo, pós nascimento na Judéia, teve seu berço primário de resistência sob tetos de rocha, espremido em passagens estreitas e câmaras claustrofóbicas, onde os cristãos – perseguidos – se escondiam para professar sua fé.
Ali, dentro das rochas, eles construíram cidades inteiras. Em todas elas, uma mesma estrutura: na primeira câmara, animais eram colocados para camuflar a entrada e sinalizar presenças de agressores.
Em cada passagem, estreitas o suficiente para permitir o deslocamento de uma só pessoa por vez, engenhocas rudimentares faziam pedras rolarem para obstruir o acesso.
Naquele submundo, o medo fazia companhia a quem driblava a vigilância para ouvir as mensagens de um tal de Jesus Cristo de Nazaré.
E foi ali, recebendo os ensinamentos de Jesus através de Paulo, por volta de 47-49 d.C. que eles – pela primeira vez – foram chamados de cristãos.
Um rebanho que se multiplicaria até alcançar um terço da população mundial. Algo em torno de 2,18 bilhões de pessoas – entre as quais eu, com crença e fé (e agora com um pouco mais de conhecimento), faço parte.
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